segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Tia Ná falando espanhol

Tia Ná tem alguma coisa que nem Freud explicaria. É louca pelo idioma espanhol. Aprendeu sozinha, com ajuda de umas fitas K-7, alguns livretos e internet. Passava horas a fio grudada na tela do computador, em salas de chat espanhol. Mesmo sem entender nada, ficava ouvindo, lendo e captando informações que a ajudassem a aprender. E aprendeu. Um espanhol diferenciado: mistura de mexicano, argentino e dominicano. Sem contar alguns modismos característicos do espanhol novaiorquino - este último, por sinal, de maior influência - uma vez que se comunicava mais frequentemente com um morador do Brooklin, NY. Passando o tempo Tia Ná foi se aprimorando. E nas andanças pela net, conheceu David, um mexicano cinquentão, simpático e falante. Na época tia Ná não possuía microfone, nem web cam. Tudo acontecia por e-mails ou em algum mensageiro on-line. Mas havia as trocas de telefones pessoais e tia Naná já possuía vários telefones de amigos virtuais, só que não fazia ligações - muito caro!!! Um dia David adoeceu. Problema renal sério. Cirurgia urgente. Silêncio total. Tia Ná se angustia, afinal, ele era um amigo muito querido, estavam já acostumados à troca de mensagens, todos os dias. Resolve então, tomar coragem e telefonar para o México. O coração pulsava forte, afinal... não tinha fluência no idioma. Assim foi. Ao terceiro toque uma voz feminina atende... tia Ná fica atônita, quase paralisada. Não por ser uma voz feminina, ela já sabia que ele estaria se recuperando na casa de uma das irmãs. O problema era o idioma espanhol, que de repente sumiu de sua memória . Tentou balbuciar alguma coisa, mas preferiu desligar o telefone e escrever algumas frases básicas que facilitaria a comunicação. Liga novamente e novamente a voz feminina atende. Tia Ná se armou de coragem e lançou a frase pré-determinada: "por favor, me gustaria hablar con David. És posible?" O coração gelado, tremia e suava nas mãos. Do outro lado, a voz firme e muito rápida para os ouvidos da Tia Ná responde: NO. Que fazer agora? Na falta de opções, só o que conseguiu balbuciar foi: Como? Ao que a voz feminina disparou então a falar em inglês. Piorou. Só faltou a Tia Ná enfartar. Mas não desistiria. De alguma forma que ela ainda não sabe qual, conseguiu passar a mensagem: "No... no... soy de Brasil, me gustaria hablar con David". Ao que a voz feminina diz: "no será posible, pues él se fue...". Tia Naná petrificou. Meu Deus, tudo... menos isso. David morreu.
E pela grande amizade que tinham, seus olhos marejaram, a voz embargou e tudo que conseguiu dizer, já misturando espanhol, português e lágrimas... "Oh! Dios... no es posible! David murio???"
E a voz do outro lado dá um grito... "Como??? no... no... David salió para una visita al medico... vuelve por la tarde"... Tia Ná desliga sem dizer mais nada, tamanho o nervosismo. Graças a Deus David estava bem, se recuperando. Ah!...depois disso o espanhol da Tia Ná melhorou muiiito.
Está quase bom. Mas ela ainda "chega lá", ah! se chega.
abraços,
M.S.

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